Hipnose e a Ciência do Inconsciente

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O que a ciência pode falar a respeito do pensamento inconsciente, ou seja, dos pensamentos que não passam pela nossa consciência?

Daniel Kahneman, Nobel em economia, descreve no seu Best-Seller, “Rápido e Devagar, Duas Formas de Pensar”, as duas maneiras que o seu cérebro pensa.

No livro, Kahneman explica que nós temos dois sistemas de pensamentos. O Sistema 1 e o Sistema 2.

O sistema 1 opera de forma automática, rápida. Em geral, o mecanismo que ele utiliza para resolver o problema não passa pela consciência.

Por outro lado, o sistema 2 é um sistema lento, racional e que vai envolver um gasto de energia. E um esforço consciente da pessoa que está utilizando esse sistema de processamento.

Pense rápido!

Mas, para entender melhor as diferenças entre esses dois sistemas, dê uma olhada nessa foto:

Hipnose e a ciência do inconsciente

Ao olhar a foto desse homem, você automaticamente pensa algumas coisas. Você sabe que ele está com raiva e imagina que ele vai gritar em algum momento.

Se você visse esse homem pessoalmente, poderia até mesmo prever as suas atitudes.

Todas essas avaliações vieram automaticamente na sua mente. Você não teve que fazer nenhum esforço cognitivo para isso, as respostas simplesmente vieram. Esse é um exemplo do nosso sistema automático de pensamento.

Consegue fazer esse cálculo de cabeça?

Hipnose e a ciência do inconsciente

Você já entendeu como funciona o pensamento automático, certo? Mas, para que você entenda o pensamento analógico, olhe essa operação: 17 x 24.

Ao observar essa operação, o seu sistema rápido e automático de pensamento começa a funcionar.

De forma instintiva, você sabe se  é ou não capaz de resolver, usando um lápis. Ou até mesmo se vai resolver usando algum sistema mental.

Além disso, o sistema automático consegue lidar com um vago conhecimento sobre os possíveis resultados.

Ainda que você não tenha feito essa operação, você sabe que a resposta 158 é a resposta errada. Ou até mesmo a resposta 15.285. Você sabe que essa operação não vai dar esses resultados.

A solução não vem automaticamente na sua mente. O que vem automaticamente na sua mente é a intuição. Habilidade ou falta de habilidade em resolver esse problema.

Talvez você já tenha resolvido essa operação que eu coloquei na tela. Se não tiver resolvido, dê uma pequena pausa na leitura para começar a resolver. Se quiser, é claro.

Não precisa nem resolver ela toda. Independentemente de você ter obtido a resposta correta. Que por sinal é 408, acertou?

É assim que sua mente funciona!

Independentemente de você ter acertado ou não, você sabe que precisou realmente pensar sobre o problema.

Você precisou engajar todo o seu pensamento para resolvê-lo. Talvez tenha sido necessário lembrar-se da época de escola, da tabuada, dos princípios da matemática. Pois se trata de uma resposta que não vem automaticamente. Você precisa parar, raciocinar e resolver.

Essa operação matemática é um ótimo exemplo do pensamento lento e racional. Que vai ser utilizado para tarefas mais complexas.

A nossa mente, então, vai trabalhar com esses dois tipos de pensamentos. O automático, que você utilizou para avaliar aquela foto. E o lento, que você utilizou, provavelmente, para resolver aquela operação matemática.

Quando pensamos em nós mesmos, frequentemente pensamos apenas no sistema 2. Aquele nosso eu que pensa, raciocina e escolhe.

No entanto, muitas das decisões que tomamos no dia a dia, são feitas pelo sistema automatizado: o sistema 1.

O sistema automático também é responsável por identificar a hostilidade na voz de alguém. Isto é, se alguém usar um tom de voz mais agressivo, instintivamente você saberá que esta pessoa está com raiva.

Quando alguém lhe pergunta quanto é 2 + 2, você responde que são 4, não é? Você faz isso automaticamente!

É possível usar o pensamento consciente e inconsciente ao mesmo tempo?

Você já dirigiu um carro em uma estrada muito calma e tranquila? Nessas condições, você provavelmente consegue usar o sistema rápido e lento, simultaneamente. Enquanto dirige, você é capaz de pensar em outras coisas, até chegar no seu destino.

No entanto, enquanto você dirige automaticamente, pode surgir uma placa. Ainda que essa placa também possa ser lida de modo automático, talvez você precise usar o sistema 2, o sistema lento. E isso para mudar sua trajetória e virar para a direita ou esquerda.

É curioso que, frequentemente, falamos dos gênios dos esportes. Pelé era um gênio do futebol, assim como André Agassi era um gênio do tênis. Mas, o trabalho motor, é essencialmente mediado pelo sistema automatizado.

Quando a gente fala de transe natural de Milton Erickson, muitos dos exemplos que são dados estão se referindo ao sistema automatizado.

Quando falamos, por exemplo:

imagine aquele dia em que você estava conversando e não percebeu que o celular estava na sua mão, mas mesmo assim você continuava procurando o celular.

Você não percebe que o celular ficou na mão porque você estava utilizando o sistema automatizado quando pegou o celular. Mas, frequentemente, vamos falar que esse é um exemplo de transe natural do dia a dia.

Então, muito do que é dito que é transe, a ciência vai entender como o uso do sistema automatizado. O sistema 1, que é rápido e inconsciente!

Inclusive, até mesmo nossas, fobias, em geral, são determinadas pelo sistema automatizado. Imagine alguém que tenha aracnofobia.

Quando a pessoa fóbica vê uma aranha, por menor que ela seja, e mesmo sabendo que a aranha não é venenosa, ainda será tomada pelo excesso de medo.

Isso acontece porque essa reação é processada pelo sistema automatizado. Por isso que terapias, em geral, vão envolver pessoas que sabem qual é o seu problema e o que devem fazer para resolver. Mas simplesmente não conseguem resolver.

A importância dos Sistemas 1 e 2 na aprendizagem

Um fato interessante é que o sistema automatizado também é capaz de aprender pela repetição. É o caso do 2 + 2. De tanto você ser exposto a essa operação, você acaba automatizando essa resposta. O mesmo ocorre com dirigir um carro.

Isso inicialmente requer toda a sua atenção. Porém, quanto mais você repete essa tarefa, mais a sua mente vai realizar ela de forma automatizada. Do mesmo modo com os nossos hábitos. Iniciam-se de forma consciente, lenta, mas acabam se tornando automáticos!  

Talvez você conheça alguém que tenha dificuldade em concentrar-se para os estudos. Isso, em geral, vai acontecer, porque o controle da nossa atenção acaba sendo dividido entre esses sistemas.

Multitarefas

Um exemplo: Você está estudando e escuta um barulho externo. 

O sistema automatizado vai interromper o que você estava fazendo para você perceber aquele barulho. Talvez você resista à curiosidade de parar o que você está fazendo e continue focado nos estudos.

Então, pessoas que são mais concentradas, em geral, não vão ser aquelas que interrompem menos o seu pensamento enquanto estudam. As interferências, em geral, vão acontecer.

O que essas pessoas, em geral, vão fazer, é não permitir que esse sistema 2, que é mais lento e essencial para o raciocínio, seja interrompido e mantenha essa a interrupção.

Então, se você está estudando e é uma pessoa muito concentrada, por mais que o sistema 2, lento, seja interrompido com barulho, você imediatamente volta para a atividade que estava fazendo antes.

É devido a esse compartilhamento da atenção entre o sistema 1 e o sistema 2, que o hábito da multitarefa é tão nocivo para a aprendizagem.

Quando você está se acostumando a fazer várias coisas ao mesmo tempo, você pode ter certeza que apenas uma dela pode usar o sistema 2, racional, consciente.

Para todas as outras atividades, você está utilizando o sistema 1, o automático. No entanto, é difícil, ao realizar várias tarefas, manter sua concentração apenas no sistema 2. Inconscientemente, a sua atenção pode acabar sendo compartilhada com as outras atividades do sistema automatizado.

 

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