No Brasil, a discriminação é crime. Entretanto, ela ainda ocorre na sociedade e diariamente ainda faz diversas vítimas. Os motivos são variados. Há a discriminação por ser mulher, pela orientação sexual, pela cor da pele, entre muitas outras.

Embora a Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989 determine que “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, o fato é que ela ainda existe, em grande quantidade, e poucas vezes levam à punição do praticante. 

Contudo, na vítima, a discriminação pode deixar sequelas emocionais. Saiba mais sobre isso e veja como o trauma pode ser tratado por meio da hipnoterapia

Uma reflexão sobre o filme Luca, da Pixar

Luca é uma animação da Pixar Animation Studios de produção de Andrea Warren. Trata-se de uma obra para o público infantil, que pode ser assistida por crianças de todas as idades. 

No entanto, por mais leve que Luca seja, ele oferece muito para que os adultos reflitam, principalmente sobre preconceito e discriminação. Em resumo, Luca é um monstro do mar, que começa a ir para a terra e, quando isso acontece, ele fica no formato de um humano. Pouco a pouco, ele começa a descobrir tudo o que existe na vida da cidade. Assim, o primeiro ponto a ser destacado é que o longa é sobre descobertas.

Além disso, a obra traz a figura dos pais de Luca, que representam a repressão parental, que é comumente presente no início da adolescência. Já Alberto, um personagem monstrinho que se torna amigo de Luca, é emocionalmente imaturo e leva a vida de maneira inconsequente. 

Giulia

A animação traz também a personagem da menina Giulia, que se torna uma ponte entre os monstrinhos do mar e os humanos. Ela também gera vários pontos de reflexão para quem assiste ao longa. 

Isso acontece porque, por mais que ela seja humana, não mora completamente na cidade litorânea de Portorosso. Por isso, acaba sendo considerada uma forasteira pelos outros integrantes. Além disso, os seus pais são separados. Com isso, ela não tem uma família completa como Luca mas, ao mesmo tempo, não é solitária como Alberto. 

Reação à transformação

Por fim, é importante enfatizar o fato de os monstrinhos virarem humanos no solo, mas voltarem a ser monstrinhos na água. Quando os humanos descobrem essa outra face, agem com repulsa. Isso representa a discriminação social que é sentida por negros, mulheres, lgbtqia+, entre outras esferas da sociedade que sofrem preconceitos. 

Ainda em Luca, é mostrado que as diferenças podem e vão ser assimiladas por grande parte da sociedade. Alberto, por exemplo, aceita a sua forma natural e a sua transformação em monstro marinho. Entretanto, Luca apresenta um pouco de resistência para mostrar quem ele realmente é. 

Já Giulia, quando descobre a verdade, não se importa com quem o amigo é, ou seja, um monstro do mar, mas com o perigo que os demais integrantes da sociedade representam. Há também o pai de Giulia que embora sempre diga que mata tudo o que é marinho e que gostaria de capturar um monstro marinho, aceita Luca e Alberto, quando descobre que eles são monstros marinhos.

No entanto, o personagem Ercole Visconti se apresenta como o principal antagonista de Luca. Competitivo, pratica bullying e não aceita as diferenças. Assim, a animação mostra diferentes tipos de pessoas e tratam a existência da discriminação seja ela pela forma, por vir de outro local ou até pelo fato de ter uma família completa ou não. Luca é um retrato social resumido de uma maneira leve, mas que instiga importantes debates.

Por que pessoas têm atitudes discriminatórias?

Uma criança nasce livre de preconceitos e, pouco a pouco, vai recebendo informações do meio em que vive e formando novas sinapses nervosas. É apenas com dois anos de idade que a autoconsciência surge. Nesse período, ela aprende e aprimora as experiências de vida. 

Nesse contexto, também assimila comportamentos e identifica, por exemplo, como se comportar com estranhos e com pessoas conhecidas, e até como conseguir o que quer por meio do comportamento. É quando muitas crianças descobrem que a birra pode dar certo e começam a fazê-la. 

À medida que a criança cresce, esses aprendizados e informações passam a ser “categorizados” e se tornam as chamadas crenças. As funções vão sendo aprimoradas e quando a pessoa tem perto de 18 anos está quase em pleno funcionamento cognitivo

Mas, em geral, é apenas por volta dos 21 anos que a pessoa se encontra em plena atividade mental, ou seja, está livre para pensar livremente. No entanto, ainda carrega tudo o que foi aprendido na infância e todos esses arquivos servem como “fonte de consulta” para o cérebro. Assim, essas informações acabam influenciando nas ações e comportamentos e julgamentos sociais. 

O preconceito vem desse processo. A criança nasce sem ele, mas em seu desenvolvimento, aprende padrões de comportamentos que trazem consigo o preconceito. Afinal, ele está enraizado na sociedade. 

O mecanismo de olhar de forma desconfiada para quem é diferente acaba sendo algo que, muitas vezes, foge do controle consciente. Assim surge um adulto preconceituoso que, quando não consegue raciocinar sobre os seus atos e atualizar o que foi arquivado em seu cérebro durante a infância, muitas vezes, se torna uma pessoa que discrimina as outras. 

Traumas de quem sofre preconceito

A discriminação gera problemas emocionais na vítima. Uma criança que carrega esse trauma desde a infância, pode se tornar um adulto ansioso. É isso que mostra uma pesquisa feita pela psicóloga Vanessa Fernandes Fioresi, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

De acordo com o resultado obtido, os traumas emocionais, como os que acontecem com crianças vítimas de discriminação, podem gerar o transtorno de ansiedade generalizada. Já em casos menos graves como, por exemplo, quando elas vivenciam a ação discriminatória,  mas não a sofrem, quando adultos elas podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático. 

Segundo a pesquisadora, a criança que foi vítima de uma situação traumática cresce compreendendo que o ambiente onde vive é inseguro e reativo à sua presença. Isso a leva a um estado de ansiedade e hipervigilância.

Para casos assim, é importante que a vítima seja acompanhada por um profissional tanto na infância, quanto na vida adulta. Tanto a psicoterapia quanto a hipnoterapia poderão ajudar a identificar a origem da ansiedade. Além disso, com a hipnose é possível ressignificar o trauma vivido, de forma que ele não prejudique a vida adulta. 

Saiba mais sobre traumas emocionais e veja dicas de como lidar com eles

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