O Que É e Como Fazer Auto-Hipnose?

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Você quer aprender como controlar pensamentos intrusivos, mudar hábitos indesejados e melhorar sua saúde emocional com ajuda da auto-hipnose?

Continue lendo esse artigo e descubra como as descobertas científicas no campo da hipnoterapia podem ajudar você a desenvolver todo o potencial da sua mente!

O que é hipnose?

A hipnose é um fenômeno simples, porém há divergências em sua definição. Existem duas teorias principais que explicam a Hipnose. São as teorias de Estado e Não Estado.

  • A Teoria de Estado, em termos simples, pressupõe uma alteração legítima no sistema neurofisiológico da pessoa hipnotizada. A existência de um “transe hipnótico” que pode ser observado por meio de uma sintomatologia e alterações nas ondas cerebrais.
  • Na Teoria de Não Estado, a Hipnose é vista como um fenômeno comportamental. Não exige necessariamente alterações nas ondas cerebrais ou sintomatologia para comprovar que a pessoa está realmente hipnotizada. Mas, unicamente, o engajamento do sujeito e a concentração que ele exerce sobre sua imaginação.

Esse artigo faz uma abordagem da hipnose pela teoria do Não EstadoAqui abordamos sobre outras definições possíveis.

O que é auto-hipnose?

Uma das definições que melhor explicam os benefícios da auto-hipnose é: “A utilização da linguagem para alterar a sua realidade”. Essas são palavras do hipnotista James Tripp, um dos maiores especialistas em Hipnose Conversacional do mundo.

A PNL (Programação Neurolínguistica) diz que “percepção é realidade”. Ou seja, não vemos a realidade como ela é, mas como nós somos.

Como é a sua realidade atualmente? Você vive ansioso? Angustiado? Se sente incapaz de manter o foco e alcançar os seus objetivos?

A auto hipnose se apresenta como uma ferramenta para alterar sua percepção da realidade. Assim, fazer você superar fobias, vícios, traumas e aprender a lidar com a ansiedade e o estresse, de forma positiva.

Quem pode ser hipnotizado?

Para muitas pessoas, principalmente as que não entendem o que é hipnose e não conhecem os seus benefícios, ser rotulada de “facilmente hipnotizável” é uma ofensa.

Elas acreditam, pela falta de esclarecimento, que ser suscetível à hipnose significa fraqueza psicológica. Mas é exatamente o contrário!

Uma pessoa hipnotizada continua no controle de suas faculdades mentais. Mas sua concentração e imaginação estão tão elevadas que elas encontram uma maior facilidade para modificar seus pensamentos e comportamentos.

Por exemplo, um fumante hipnotizado pode conseguir parar de fumar mais facilmente do que um fumante que tenta parar de fumar, sem ajuda da hipnose.

A suscetibilidade hipnótica

Nesse sentido, a suscetibilidade hipnótica é uma habilidade incrível, que todos gostariam de possuir!

Por muito tempo, a ciência acreditou que a suscetibilidade hipnótica fosse um traço da personalidade do indivíduo. E portanto, que não poderia ser modificada.

Isso quer dizer que apenas algumas pessoas poderiam transformar suas vidas por meio da hipnose porque haviam nascido com essa habilidade.

Entretanto, no ano de 1987, surgiu uma nova pesquisa que mudaria para sempre os rumos da hipnose no mundo. No respectivo ano, o pesquisador Campbell Perry descobriu que era possível alterarmos nossa suscetibilidade à hipnose.

É possível treinar o cérebro para ser hipnotizado?

Nessa pesquisa, Perry estudou tudo que já havia sido publicado sobre o tema e fez o seguinte questionamento:

  • Seria possível melhorar as nossas habilidades de entrar em hipnose e de responder a sugestões?

Em seu estudo, ele descobriu um problema metodológico em todos os artigos científicos sobre suscetibilidade hipnótica que haviam sido publicados até então. Quando as pessoas entravam em treinamentos de auto-hipnose ou hipnose, simplesmente repetiam exercícios.

No entanto, o que Perry descobriu é que a hipnose requer que o voluntário participe ativamente do processo.

Hipnose requer uma mudança de atitude

Se esses treinamentos de hipnose ou auto-hipnose não trabalhavam nessas variáveis, é claro que eles iam conseguir sempre os mesmos resultados.

É nesse contexto que vão surgir os treinamentos sociocognitivos para melhorar a performance hipnótica das pessoas. É um processo orientado a um determinado objetivo/propósito.

Ou seja, de acordo com esta perspectiva, a hipnose não envolve a entrada em um “estado alterado de consciência”, chamado de transe.

Na verdade, a hipnose aconteceria porque o voluntário deseja atingir um objetivo. Sabendo que aquele objetivo dependia de um tipo de atitude, ele passa a desempenhar todo o comportamento esperado.

O voluntário que vai participar do processo hipnótico precisa ter a intenção de ser um bom sujeito em hipnose. Mais que isso, a intenção de desempenhar um comportamento compatível com alguém que deseja entrar em “transe”.

Nesse sentindo, Campbell compreendeu que o bom desempenho em hipnose e em auto-hipnose depende, principalmente, do que o voluntário pensa sobre hipnose. E qual é a sua atitude durante todo o processo.

Hipnose é um tipo de comportamento.

A perspectiva sociocognitiva da auto-hipnose

Tenha um objetivo

auto-hipnose

O que determina o sucesso de uma pessoa na auto-hipnose científica é essa necessidade de engajamento em direção ao objetivo. Quanto mais engajada ela estiver, mais suscetível a hipnose ela estará.

Pense, por exemplo, em alguém que deseja usar hipnose para parar de fumar. E outra que deseja ser hipnotizada apenas para saber como é a sensação de estar hipnotizada.

Qual desses dois voluntários estará mais engajado no processo?

É muito fácil perceber que o primeiro voluntário, que deseja parar de fumar, vai estar muito mais motivado e se permitirá mais, durante a Hipnose!

Quando essa pessoa começar o processo de auto-hipnose, vai fazer o máximo para ser um bom sujeito. Ela vai desempenhar todo o comportamento que é esperado de uma pessoa que quer parar de fumar!

Enquanto isso, a segunda pessoa que diz que quer apenas entrar em auto-hipnose, mas que não tem um propósito bem definido. Certamente vai ter dificuldade em encontrar o comportamento adequado para entrar em hipnose.

Por essa razão, entender a hipnose como um “estado alterado de consciência” pode ser uma percepção nociva.

Concentre-se na meta

Essa percepção é nociva porque enfoca na ideia de que entrar em hipnose ou auto-hipnose requer um ato passivo. Ou seja, a pessoa simplesmente se concentra para entrar em um estado especial, que ela não sabe exatamente o que é.

As interpretações do que seja o transe hipnótico são completamente subjetivas e adversas. Ainda que exista uma sintomatologia comum a todas as pessoas, em geral, cada pessoa vai perceber esse transe de maneira diferente.

Mas, se a pessoa entrar no processo com um objetivo bem definido, como parar de fumar, acabar com uma fobia ou controlar a ansiedade, essa pessoa vai ter maiores chances de ser bem sucedida na hipnose e alcançar seu objetivo. Ela vai saber seguir as instruções adequadamente, porque ela quer muito isso.

Não duvide de seu engajamento

Quando a pessoa não está engajada, o hipnotista dá uma sugestão e ela pensa: “Será que vai funcionar? Será que ele vai invadir minha mente? Minha mente é tão inabalável!”.

Contudo, a pessoa que entra na hipnose com um propósito bem definido tem coisas mais importantes para pensar durante o processo. Como se manter engajada e em direção ao seu objetivo.

Ainda que esse objetivo seja simplesmente sentir suas mãos coladas pelo poder da imaginação!

Algumas pessoas podem se indagar para que serve colar as mãos ou esquecer o nome na hipnose. Pois, para o sujeito, isso pode significar que ele é realmente capaz de reprogramar a sua mente e suas crenças.

A maior questão que está sendo levantada aqui é que se você ficar o tempo todo pensando “vou sentir um estado de transe, preciso entrar em transe”, poderá estar sabotando a atitude mental em direção ao seu objetivo. Que é o que realmente importa!

Como fazer auto-hipnose com base na perspectiva sociocognitiva?

Pacote de Treinamento de Competências de Carleton (CSTP)

Nos anos 80, surge a primeira bateria de exercícios sócio cognitivos para melhorar a performance em hipnose: o CSTP, Pacote de Treinamento de Competências de Carleton.

Desenvolvidos pelos pesquisadores Donald Goracine e Nicolas Espanos, o objetivo era fazer com que o voluntário mudasse sua postura em relação à hipnose.

A importância da atitude mental do voluntário em se tornar agente do processo

É a  valorização da resposta ativa do voluntário a cada sugestão da hipnose. Além de treinar a motivação para responder as sugestões e o fim do medo de entrar no processo hipnótico.

Perceba que vamos falar o tempo todo de entrar no processo hipnótico, entrar na hipnose, que significa ter a postura mental adequada.

Os participantes do processo de treinamento são treinados a responder adequadamente a vários tipos de sugestões. Desde respostas ideomotoras — aqueles movimento que fazemos inconscientemente apenas por pensar nesse movimento — até outras sugestões mais complexas, como amnésia.

Para gerar esse “autoengano” voluntário, o protocolo CSTP indica que o voluntário a entrar em hipnose deve ser informado de que ele deve, realmente, responder à sugestão de forma voluntária. Porém, imaginando que ela está acontecendo de forma automática.

Ao imaginarmos que ela acontece automaticamente, parece que acontece uma generalização desse estímulo. E passamos a conseguir desempenhá-lo, de modo automático, outras vezes.

Pode parecer complicado, mas é bem simples. Lembre-se daquele famoso exercício dos livros e balões. A pessoa estende os dois braços, e se ela for destra, fecha a mão direita, coloca o dedão para cima e deixa a mão esquerda estendida, com a palma virada para cima.

Enquanto está nessa posição, você pede para ela fechar os olhos e imaginar que na mão direita, você está colocando vários balões de hélio. E na mão esquerda, existem um ou mais livros bem pesados, que vão pesando cada vez mais.

Em geral, as pessoas acabam movimentando essas mãos ao menos um pouco, por causa do movimento ideomotor.

Mas, o que uma pessoa pode fazer para melhorar a sua resposta a esse tipo de exercício ideomotor em auto-hipnose?

É aí que surge o principal insight do protocolo CSTP!

Quando a pessoa faz esse exercício, ela fecha os olhos e imagina que a mão direita tem um balão ou vários balões que fazem sua mão subir lentamente. Imagina também que a mão esquerdar vai ficando cada vez mais pesada devido a presença de um ou vários livros.

Geralmente, as pessoas tentam apenas imaginar e esperar que, de certa forma, o movimento ideomotor se transforme em auto-hipnose, automaticamente.

A ideia do CSTP não é apenas esta. Mas de que a pessoa deve, voluntariamente mexer suas mãos e quanto mexe, imagina que esse movimento está acontecendo de forma automática.

Enquanto ela se concentra e de forma deliberada, vai movimentando as mãos. Se concentra também na ideia de que as mãos estão se movimentando de forma involuntária. Isso causa uma sobrecarga na memória operacional e temporária do cérebro.

Quando você começa, voluntariamente, a levar a mão, você está ocupando uma parte da sua mente consciente

Mas, ao se concentrar na ideia de que sua mão sobe sozinha, aquele pensamento inicial consciente acaba perdendo força e você consegue instalar, inconscientemente, o comportamento do movimento da mão para cima e o mesmo com a mão para baixo.

Outro exercício ideomotor muito interessante é o das “mãos magnéticas”. O hipnotista pede que o voluntário estique bem os braços, feche os olhos e imagine que essas duas mãos são dois imãs muito poderosos. Esses imãs se atraem mais e mais. Como se um tivesse um polo positivo e outro negativo, eles vão se atraindo cada vez mais.

A maior parte das pessoas desenvolve no mínimo um pequeno movimento devido ao fenômeno ideomotor. No entanto, essa resposta pode ser treinada e melhorada.

Se você simplesmente colocar as mãos desta forma, fechar os olhos e começar a movimentar as mãos levemente, consciente, mas imaginando que estão se movendo sozinhas, você vai começar a criar esse movimento automático. O cérebro começa a generalizar a resposta para outros fenômenos.

Finja até que aconteça

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Existe um ditado que diz: “fake it till you make”. Em outras palavras, finja até que aconteça.

É isso que acontece no CSTP. Você vai fingindo de forma voluntária. Ativamente vai se concentrando na ideia de que isso acontece de automático. Que não está acontecendo devido a sua vontade consciente.

O protocolo do CSTP dá a seguinte orientação:

Faça de forma voluntária tudo aquilo que lhe é sugerido. No entanto, não preste atenção ao fato de você estar fazendo isso voluntariamente. Foque toda a sua atenção às sugestões e a imaginar, de forma plena, tudo aquilo que acontece.

Outros exemplos

O curioso é que muitos hipnotistas do passado já tinham essa ideia intuitiva, de fingir até que aconteça de verdade.

Um grande exemplo é Milton Erickson. Ele desenvolveu uma técnica chamada “indução ensaiada”.

Nessa indução, Erickson falava para o sujeito que iria treiná-lo a entrar em transe. Ele sugeria para a pessoa que fingisse os comportamentos compatíveis com a ideia de transe e ao fingir, a pessoa realmente engajava no processo.

Até mesmo Dave Elman teve essa ideia, de que a hipnose requer uma automatização do comportamento. Que a principio poderia ser voluntário, mas que por fim se torna automático.

Quando Elman ensinava auto-hipnose para crianças, ele pedia a elas que fingissem que os seus olhos não podiam abrir, até o momento em que não abrissem, de fato.

O seu cérebro aprende observando

O último passo do protocolo CSTP para conseguir entrar em auto-hipnose é, simplesmente, ver pessoas entrando em hipnose e auto-hipnose.

Em meados do século 19, James Braid percebeu um fato bem interessante. Quando ele hipnotizava alguém e outras pessoas assistiam, essas pessoas que assistiam o procedimento acabavam se tornando melhores sujeito para entrar em hipnose depois.

Quem faz demonstrações públicas de hipnose na rua ou na casa de amigos, já deve ter percebido que quando a primeira hipnose dá certo, a tendência é que todas as outras funcionem.

Outra coisa bastante interessante, principalmente na hipnose de rua, é quando um sujeito tem alucinações. Ou seja, a pessoa vê algo que não existe. A quantidade de alucinações nos outros voluntários é bem maior.

Tudo isso é uma prova de que a hipnose funciona por meio da expectativa. Mais que isso, essa expectativa também ensina às pessoas qual comportamento devem ter para entrar em hipnose.

Por isso, no treinamento CSTP, existem muitos exercícios ideomotores. Mas para todos eles, é essencial o engajamento.

Aliás, esse protocolo já foi repetido várias e várias vezes nos anos 80, 90. E até os dias de hoje continua tendo excelentes resultados!

 

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