O que é hipnose? Saiba como usar e para que funciona

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Você sabe o que é hipnose? Ela, há séculos, está envolta em mitos e mistérios. Chega a ser vista por muitos como uma atividade suspeita ─ ou até charlatanismo.

Porém, ao mesmo tempo em que gerava dúvidas, acabou atraindo a atenção de muitos estudiosos do comportamento humano. Estudiosos esses que deram o devido reconhecimento à hipnose. Não foi nada rápido, pelo contrário, devido a esses efeitos controversos que as pessoas dizem saber sobre a hipnose.

Por isso, neste artigo vamos responder perguntas mais comuns e entender como funciona a hipnose.

O que é hipnose?

De acordo com Associação Americana de Psicologia, a hipnose é um procedimento no qual um profissional de saúde ou pesquisador sugere, ao tratar alguém, que ele irá experimentar mudanças nas sensações, percepções, pensamentos ou comportamento.

Embora existam muitos tipos de indução de hipnose, normalmente tratam-se de sugestões de relaxamento, de calma e de bem-estar. Em geral, o hipnólogo dá instruções para o paciente imaginar ou pensar em experiências agradáveis durante a sessão.

As pessoas respondem à hipnose de maneiras diferentes. Alguns descrevem que a hipnose é um estado de atenção concentrada, no qual eles se sentem muito calmos e relaxados.

O uso da hipnose para fins terapêuticos ficou conhecido como hipnoterapia, e consiste em induzir o paciente a esse estado para conduzi-lo com sugestões a ter hábitos mais saudáveis, especialmente no quesito mental.

Mas, quando a hipnose é autoinduzida, ou seja, realizada sem o auxílio de um hipnólogo, esse processo é conhecido como auto-hipnose.

Mas até chegar nesse nível de aplicação, a hipnose passou por muitos estudos e transformações no conceito original.

Como surgiu a hipnose?

A hipnose começou a ser praticada no século 18, quando o médico alemão Franz Anton Mesmer defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Viena. Ele afirmou que a existência de uma atração gravitacional entre a Terra e outros corpos celestes afetava a saúde das pessoas, sendo responsável por vários tipos de doenças mentais.

Com o tempo, as técnicas de Mesmer ganharam fama até que o médico escocês James Braid resolveu torná-la mais aceitável. Ele adotou uma abordagem mais científica, e a partir daí a hipnose passou a ser estudada por gente mais séria – como o francês Jean-Martin Charcot (1825-1893), considerado o pai da neurologia, o psicólogo russo Ivan Pavlov (1849-1936) e o próprio Freud (1856-1939), que chegou a hipnotizar seus pacientes no começo da carreira.

Mesmo assim, a hipnose só começou a ser aceita pela ciência em 1997, quando o psiquiatra americano Henry Szechtman fez uma experiência com oito voluntários. Eles foram vendados e ouviram uma gravação que repetia a seguinte frase: “O homem não fala muito. Mas, quando ele fala, vale a pena ouvir o que diz”. Szechtman desligou o som e pediu aos voluntários que tentassem imaginar a frase. Em seguida, hipnotizou todo mundo e disse que iria tocar a fita novamente.

Mas não, não havia nenhum som tocando. Mesmo assim, os voluntários disseram ter ouvido a gravação. O cientista concluiu que durante a alucinação e quando a gravação estava tocando de verdade, a atividade do cérebro era idêntica. Já quando as pessoas apenas imaginavam o som, a atividade era diferente.

Outros estudos comprovaram esse efeito, e permitiram chegar a uma conclusão definitiva: a hipnose existe, não é fingimento e tem um efeito característico sobre o cérebro – é uma simulação perfeita da realidade, muito mais forte que a imaginação ou a autossugestão.

O que é hipnose? Saiba como usar e como funciona

De onde vem o mito da hipnose?

A hipnose, apesar das definições acima virem de um local científico a partir de estudos, é um tema polêmico e que habita o imaginário das pessoas.

Há muitos conceitos mal entendidos que a mistificam, o que leva as pessoas a não a levarem a sério.

O mito da hipnose é apresentado na mídia em histórias como “Mogli: o menino lobo” (Disney; 1968, 2016) e “Escorpião de Jade” (Woody Allen; 2001).

Nessas tramas a hipnose é apresentada como um estado instantâneo, semiconsciente e semelhante ao sono. Nelas há a presença de um hipnotizador poderoso que tem uma influência quase milagrosa no participante submisso hipnotizado, também seguido de devastadoras consequências a longo prazo.

De onde vêm as falsas crenças

Uma das dimensões onde existem falsas crenças sobre hipnose são aquelas causadas por experiências negativas ou semi-profissionais.

Assim como acontece com experiências hipnóticas, como meditação, imaginação guiada e hipnose de palco. Além disso, esses equívocos chegam com base em histórias contadas por parentes, amigos, ou conhecidos.

As falsas crenças sobre a hipnose surgiram ainda de lendas urbanas e eventos bem conhecidos na memória local e/ou nacional.

Por exemplo, em Israel, um dos equívocos mais frequentes entre o público em geral sobre a hipnose, é que a pessoa não pode ser acordada após uma sessão de hipnose. Este equívoco provavelmente persistiu devido ao caso bem conhecido de um hipnotizador que foi incapaz de desipnotizar um dos sujeitos durante um show.

No Brasil, a propaganda do chocolate Batom estigmatizou a hipnose com a frase “Compre Batom”. Voltada ao público infantil, o comercial foi criticado ao usar sugestões diretas e persuasivas.

Como funciona a hipnose

Nada de pêndulo ou relógios de bolso como o imaginário popular costuma associar. Explicar como funciona a hipnose é simples. Hoje, grande parte das induções na hipnoterapia é feita por meio de relaxamento dirigido por palavras ou toque em pontos específicos da face, entre outras técnicas.

Para a realização dos procedimentos de hipnoterapia, o profissional cria uma atmosfera que leva o paciente a acessar as informações escondidas no seu inconsciente.

Nesse estado, há mudanças nos padrões das ondas cerebrais, onde várias estruturas do órgão são ativadas com maior intensidade – em especial as relacionadas à memória e às emoções.

O objetivo é atingir um nível máximo de atenção para extrair da mente o que for preciso para ajudar no tratamento, aproveitando que as condições cerebrais obtidas deixam o paciente com maior abertura para ser sugestionado.

A partir daí, o terapeuta consegue descobrir traumas do passado e da infância. Tais traumas permitem ao paciente a revelação de sentimentos e emoções reprimidas que, ao voltarem à tona, podem ser melhor trabalhados.

Nem a hipnose nem a hipnoterapia possuem qualquer ligação com religiosidade ou crenças, o que permite a qualquer um se submeter ao tratamento sem esse tipo de constrangimento.

As etapas da hipnoterapia

O trabalho de hipnose costuma ser realizado por meio de métodos como:

  • estimulação de sono;
  • escrita automática;
  • regressão;
  • projeção de um futuro;
  • diálogos com o terapeuta;
  • técnicas de psicodrama;
  • hipnoanálise (que combina hipnose e psicanálise), entre outros.

Em resumo, a hipnoterapia consiste em cinco etapas.

1. Pré-talk

Essencialmente, o hipnólogo explicará como funciona a hipnose.

Nessa conversa prévia, ele esclarece informações de senso comum sobre a hipnose para o paciente. Também, dizer quais são as instruções para que ocorra a hipnose.

2. Anamnese

Aqui é realizada uma investigação da situação do paciente e onde são identificadas as possíveis causas dos problemas relatados.

3. Indução hipnótica

Período em que o terapeuta leva o paciente ao estado inconsciente por meio do transe.

4. Sugestões

Fase em que há sugestões por meio de linguagem, imagens ou desenhos da situação problemática.

Nessa etapa, o paciente já tem um objetivo em mente, escolheu um local apropriado, está confortavelmente sentado ou deitado e consegue facilmente relaxar seu corpo e mente por meio da respiração lenta e regular.

5. Dehipnotização

Aqui há a saída do paciente do transe, em que há a retomada do estado normal.

O que é hipnose? Saiba como usar e como funciona

Como usar a hipnose

O pontapé para usar a hipnose é ter a atenção do indivíduo por meio da estimulação do sistema límbico cerebral, responsável pelas emoções e comportamentos sociais. Com isso, é estimulado o neocórtex, um sistema do cérebro responsável por funções sensoriais e movimentos voluntários.

Uma vez feito isso, aplica-se técnicas de hipnotização, trabalhando com uma das cinco portas de percepção a seguir.

1. Fixação de olhos

O método mais clássico de todos, graças ao famoso relógio de bolso criado por James Braid – aquele que citei no começo do artigo.

Consiste em fazer a pessoa olhar fixamente para um ponto ou objeto a fim de prevenir distrações e se tornar mais fácil a programação da mente.

2. Narrativa

Aqui, o hipnólogo pede ao paciente que relaxe membro a membro do corpo. Depois, num tom calmante, o profissional o leva a imaginar uma história.

Porém, isso não é o suficiente, já que também é necessário que o profissional domine sua linguagem corporal e sua forma de fazer contato visual para que seja possível influenciar a pessoa.

3. Confusão

Criado para lidar com pessoas resistentes, consiste em iludir a pessoa com atos incomuns – como um aperto de mão que se prolonga e vira uma espécie de massagem.

4. Desequilíbrio

O hipnotizador diz ao paciente que se coloque numa posição na qual seja difícil se manter de pé. E, ao mesmo tempo, pede que ele se concentre em seus membros.

5. Choque

Por fim, o método de choque simula uma hipnose comum, passando as mãos na cabeça da pessoa – mas de repente fazer um gesto brusco, jogando a cabeça para trás enquanto grita a palavra “durma”.

Mitos e verdades sobre o que é hipnose

A hipnose é uma terapia?

Além de entender o que é hipnose, é importante saber que ela não é um tipo de terapia, como a psicanálise e a terapia comportamental.

Em vez disso, é um procedimento que pode ser usado para facilitar terapia e tratamentos. No entanto, é necessário um treinamento adequado em hipnose para a melhor condução da terapia.

A hipnose clínica deve ser usada apenas por profissionais de saúde devidamente treinados e credenciados (por exemplo, psicólogos clínicos licenciados), e que também foram treinados para o uso da hipnose.

O que a hipnose pode fazer?

  • Anestesiar uma pessoa ─ Em 1845, antes da popularização da anestesia, o médico escocês James Esdaile já usava a hipnose em cirurgias e amputações.
  • Curar tabagismo, compulsões e vícios em geral ─ Esse tipo de tratamento também deve ter terapia, onde as sessões devem ser feitas de maneira periódica.
  • Implantar memórias ─ Há casos de falsas memórias que acabaram na Justiça e começaram na atuação desastrada (ou maldosa) de hipnoterapeutas.
  • Sugerir a fazer algo após a sessão de hipnose ─ É possível condicionar uma pessoa para que ela reaja a certos sinais, como pular toda vez que ouvir determinado som, por exemplo.
  • Hipnotizar alguém à força ─ Existem técnicas que permitem hipnotizar a vítima sem que ela perceba. Mas isso só dá certo se o paciente dedicar atenção ao hipnotizador.

O que a hipnose NÃO pode fazer?

  • Controlar a mente ─ Mesmo pessoas altamente hipnotizáveis não se tornam “zumbis”. Além disso, a hipnose cessa após alguns minutos (ou quando o hipnólogo vai embora).
  • Apagar memórias ─ Pessoas altamente hipnotizáveis podem se esquecer de acontecimentos, mas acabam se lembrando deles após algum tempo.
  • Acessar memórias reprimidas ─ As supostas lembranças (que no Texas são aceitas como prova judicial) são contaminadas pela imaginação.
  • Hipnotizar bichos ─ Hipnose é um fenômeno da parte mais moderna do cérebro humano. O que acontece com animais é apenas catatonia (paralisia).

Perde a consciência?

Não. Há quem acredite que a mente não volte ao estado normal após uma sessão de hipnose. É importante perceber que, durante a sessão, o hipnotizado não perde a consciência. Esse conceito é essencial para compreender o que é hipnose.

A explicação é simples: ele apenas entra em um estado de grande relaxamento e atenção. A pessoa permanece acordada durante todo o processo e pode sair do transe sozinha.

Porém, é importante ressaltar que existem casos em que o hipnotizado experimenta um estado de relaxamento tão agradável que não aceita a sugestão do hipnoterapeuta de voltar. Quando isso acontece, a pessoa permanece mais um tempo em transe até que cai, naturalmente, no sono e acorda.

O que é hipnose? Saiba como usar e como funciona

Recupera memórias?

A noção de que a hipnose pode alterar permanentemente memórias é conhecida desde o século 19 (Freud, Bernheim, Janet, Forel) no campo da hipnose e da psicologia.

Acreditava-se ser útil e catártico o uso da hipnose para induzir a regressão de memórias traumáticas passadas para revivê-las. E uma vez não estando mais reprimidas, passariam a ter benefícios terapêuticos.

No entanto, há informação científica e médica disponível que demonstram que a própria natureza da memória é tão maleável, que o uso da hipnose pode resultar na criação e implantação de falsas memórias.

A Síndrome da Falsa Memória (SFM) foi um termo cunhado em 1992 pela Fundação da Síndrome da Falsa Memória. Ela descreve o fenômeno de que alguns adultos se lembram, tardiamente, de detalhes de um abuso sexual na infância. No entanto, eles podem estar enganados quanto à eficácia de suas memórias.

As falsas memórias são resultados de terapia de memória recuperada, outro termo também cunhado pela FSFM, no ínicio dos anos 1990.

Produz efeitos negativos?

Muitos podem não entender muito bem o que é hipnose porque têm medo de suas reações indesejadas. Principalmente porque podem ser incapazes de lidar com elas.

Afinal, se a hipnose produz profundas alterações na consciência, percepções e sensações, as coisas podem ficar fora de controle durante a sessão.

No entanto, na maioria dos estudos experimentais, os sujeitos descrevem a experiência da hipnose como positiva.

Tem comprovação científica?

Sim! Existam muitos exemplos na literatura científica que atestam a utilidade da hipnose clínica.

Um deles é um estudo, publicado no periódico médico The Lancet, que recrutou 354 voluntários com problemas relacionados à síndrome do intestino irritável. Uma parcela deles recebeu aulas sobre o problema, enquanto a outra parte teve dois encontros semanais com um especialista em hipnose durante 45 dias.

Ao longo das sessões, os indivíduos ficavam concentrados e escutavam mensagens sugerindo que eles tivessem maior controle sobre o aparelho digestivo. Resultado: o segundo grupo relatou menos incômodos gastrointestinais.

Usos da hipnose

A hipnose tem sido usada no tratamento da dor; contra a depressão; fobias; ansiedade e estresse; distúrbios de hábitos; problemas gastrointestinais; condições de pele; recuperação pós-cirúrgica; alívio de náuseas e vômitos; parto; e muitas outras condições.

Além de seu uso em ambientes clínicos, a hipnose é usada em pesquisas e configurações forenses. Pesquisadores estudam o valor da hipnose no tratamento de problemas físicos e psicológicos e examinam o impacto da hipnose na sensação, percepção, aprendizado e memória.

No entanto, pode não ser útil para todos os problemas psicológicos e/ou médicos ou para todos os pacientes ou clientes.

A decisão de usar a hipnose como adjuvante do tratamento só deve ser tomada em consulta com um profissional de saúde qualificado que tenha recebido treinamento sobre o uso e as limitações da hipnose clínica.

O que é hipnose? Saiba como usar e como funciona

Todos podem ser hipnotizados?

De uma forma geral, de crianças a idosos, todos podem ser submetidos ao tratamento com hipnose. O que muda é que existem níveis de profundidade em que o paciente entra em transe.

As pessoas diferem no grau em que respondem à hipnose. A capacidade de uma pessoa em experimentar a hipnose pode ser inibida por medos e preocupações decorrentes de alguns equívocos comuns.

Como dissemos, as pessoas que foram hipnotizadas não perdem o controle sobre seu comportamento, ao contrário de algumas representações de hipnose em livros, filmes ou televisão. A menos que a amnésia tenha sido especificamente sugerida, as pessoas permanecem conscientes de quem são, onde estão e recordam o que aconteceu durante todas as sessões de hipnose.

A hipnose se torna mais fácil para as pessoas experimentarem sugestões, mas isso não as força a ter essas experiências.

Bônus: 5 fatos sobre o que é hipnose

Então, além das perguntas acima serem as mais comuns quanto a hipnose, deixamos aqui mais 5 fatos sobre a hipnose para reforçar o que é a hipnose.

É importante, enquanto hipnólogo ou hipnotizado, educar-se em relação a todos os aspectos da hipnose. Para que a pessoa esteja disposta e suscetível a entrar nesse processo, é preciso que não haja dúvidas e descrenças.

 

  • A hipnose não é um procedimento perigoso quando praticado por clínicos e pesquisadores qualificados.

 

  • A maioria dos participantes hipnotizados não descreve sua experiência como um transe profundo, mas como atenção focada em eventos sugeridos.
  • Hipnose depende mais dos esforços e habilidades do sujeito do que na habilidade do hipnotizador.
  • Os participantes mantêm a capacidade de controlar seu comportamento durante hipnose, recusar-se a responder a sugestões, e até mesmo a se opor sugestões.
  • A hipnose não aumenta a confiabilidade da memória ou promove uma reexperiência literal eventos da infância.

 

 

Possui mais alguma dúvida sobre o que é a hipnose ou como você pode utilizá-la no seu cotidiano? Deixe seu comentário que terei muito prazer em te responder suas questões!

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